O que é a escala 6×1 e o que propõe a sua extinção?

A escala 6×1 é o modelo de trabalho em que o trabalhador cumpre seis dias de atividade seguidos por um dia de descanso. Ela está prevista na Constituição Federal de 1988, que estabelece a jornada máxima de 44 horas semanais e o descanso semanal remunerado, preferencialmente aos domingos.
No Brasil, esse modelo é amplamente utilizado em setores que operam de forma contínua — como o transporte, o comércio, a saúde e a segurança pública. Para o transporte, em especial, a operação ininterrupta é uma característica estrutural: ônibus, caminhões, metrôs e trens não param nos fins de semana nem nos feriados, porque a população depende deles todos os dias.
O que muda na prática?
Reduzir a jornada significa, essencialmente, que cada hora trabalhada passa a custar mais para o empregador — já que o mesmo salário será pago por menos horas. Para empresas de transporte, que dependem de operação contínua e já enfrentam escassez de mão de obra qualificada, o efeito é ainda mais direto: seria necessário contratar mais trabalhadores para manter o mesmo nível de serviço.
O que defende a CNT
A Confederação Nacional do Transporte (CNT) acompanha com atenção o debate sobre a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1. O setor produtivo está aberto ao diálogo, mas defende que qualquer alteração seja conduzida com responsabilidade, previsibilidade e compromisso com o país, sendo viabilizada por meio de convenções coletivas e não por imposição legal.
Na Agenda Institucional Transporte e Logística 2026, a CNT defende a rejeição e arquivamento da PEC 221/2019 e de seus apensos, incluindo a PEC 8/2025. O documento aponta que:
- A redução da jornada de trabalho imposta de forma linear exigiria uma reestruturação imediata das escalas e reduziria a flexibilidade hoje assegurada pela legislação e pela negociação coletiva.
- O risco é agravado pela escassez já existente de motoristas profissionais, que limita a reposição rápida de mão de obra.
- A medida tenderia a pressionar custos de fretes e tarifas, reduzir oferta e frequência, comprometer prazos logísticos e afetar cadeias produtivas.
Mas por que a Confederação adota esse posicionamento?
O transporte opera sem parar, sendo uma atividade essencial e estratégica para a economia e para a qualidade de vida da população. O setor garante o direito constitucional de locomoção e viabiliza o deslocamento de absolutamente tudo que é produzido, consumido e utilizado no Brasil, incluindo saúde, educação, alimentos, medicamentos, insumos industriais e serviços públicos. Trata-se de uma atividade contínua, que funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, para atender todas as áreas da economia e assegurar o funcionamento do país.
Por isso, qualquer mudança nas regras de jornada precisa considerar essa realidade operacional. Não se pode apenas aplicar, de forma linear, uma solução única para setores e regiões geográficas com dinâmicas completamente diferentes.
A CNT reconhece que o bem-estar dos trabalhadores é um valor fundamental e que o debate sobre jornada de trabalho é legítimo. A Confederação não é contrária à discussão. O que a CNT defende é que eventuais alterações sejam feitas por negociação coletiva, instrumento que permite a trabalhadores e empregadores construir acordos adequados à realidade de cada setor, região e empresa, respeitando as especificidades do transporte.
“Modernizar a jornada é legítimo, mas precisa ser feito com responsabilidade e um debate ponderado. O setor de transporte tem características operacionais únicas, como funcionamento contínuo e alta dependência de mão de obra. Qualquer alteração nas regras de jornada e escala precisa considerar seus impactos econômicos e sociais.”
Vander Costa, presidente do Sistema Transporte
Impactos no Transporte
Para subsidiar o debate com evidências técnicas, a CNT encomendou o estudo “Redução de Jornada, Mudança de Escalas e Bem-Estar Social no Setor de Transportes”, coordenado pelo professor José Pastore (USP) e pelo economista Paulo Rabello de Castro. O levantamento analisa os efeitos econômicos e operacionais de mudanças no regime de trabalho especificamente para o setor de transporte.
Os resultados revelam impactos significativos em quatro dimensões:
Custos e financeiro
A redução de 44 para 40 horas semanais, sem ajuste proporcional de salários, provocaria um aumento imediato de 10% no valor da hora trabalhada. Para o setor de transporte, onde 92,5% dos profissionais atuam dentro do limite atual, isso representaria uma elevação de 8,6% nos custos com pessoal, o que, no longo prazo, equivale a um impacto de R$ 11,88 bilhões para o setor.
Atualmente, 47,3% do valor adicionado bruto já é destinado ao pagamento de pessoal, e o excedente operacional bruto é de apenas 21% da receita. Com esse cenário, novas pressões de custo tendem a ser repassadas ao consumidor na forma de fretes e passagens mais caros — algo que afeta a inflação de toda a cadeia econômica.
Mão de obra e emprego
Para manter o nível de serviço com a nova jornada, seria necessário contratar cerca de 240 mil trabalhadores adicionais. O problema é que o setor já enfrenta uma crise de escassez de profissionais qualificados, conforme os dados abaixo refletem:
- 65,1% das empresas de TRC relatam falta de motoristas profissionais (Pesquisa CNT, 2021)
- 53,4% das empresas de transporte urbano de passageiros apontam escassez de motoristas (Pesquisa CNT, 2023)
- O déficit estimado de motoristas no Brasil supera 120 mil profissionais em 2025
Sem trabalhadores suficientes para repor as horas perdidas, o efeito seria o inverso do desejado: redução da oferta de serviços, com possível impacto de 42 a 84 mil demissões por inviabilidade econômica, dependendo do cenário de redução.
Pequenas empresas são as mais vulneráveis
O setor de transporte é formado majoritariamente por pequenas empresas: 90,5% dos empreendimentos têm até 9 empregados. Para esse grupo, a capacidade de absorver novos custos é muito menor. A compressão das margens pode reduzir a capacidade das empresas de arcar com despesas básicas — e, em casos extremos, levar à inviabilização de operações, especialmente em rotas menos rentáveis e regiões remotas.
Informalidade e produtividade
O setor de transporte apresenta hoje alto nível de formalização: 92,1% dos trabalhadores têm vínculo formal (carteira assinada). Esse é um ativo que precisa ser preservado. Novas pressões de custo podem estimular práticas informais, especialmente entre pequenos empregadores — prejudicando os próprios trabalhadores que a medida pretendia proteger.
Adicionalmente, o estudo aponta que o Brasil já enfrenta um problema estrutural de produtividade. Um trabalhador brasileiro produz, em média, US$ 17 por hora, valor inferior ao de economias desenvolvidas e até de países latino-americanos. Sustentar o nível atual de atividade com jornada reduzida exigiria um aumento imediato de produtividade — improvável diante dos gargalos de infraestrutura existentes.
*As informações são da CNT.